3. Rótulos (SKOS-XL): nomes que carregam história¶
No BioCultTermos, cada nome de um conceito é um rótulo — e um rótulo não é só texto: é um objeto com metadados próprios. É isso que o "XL" (eXtension for Labels) acrescenta ao SKOS comum, e é exatamente o que o conhecimento tradicional exige.
Por quê? Porque quem deu o nome, em que língua, e se ele pode ser divulgado são informações tão importantes quanto o nome em si.
Referência normativa da arquitetura: este capítulo é o guia didático. A relação completa dos rótulos SKOS-XL que a arquitetura federada suporta — tipos, metadados, regras consolidadas e exemplos das curadorias reais — está centralizada em Rótulos SKOS-XL da Arquitetura BioCultural. Divergência entre os dois resolve-se lá.
3.1 Os três tipos de rótulo¶
Na tela de edição, seção "Rótulos (SKOS-XL)", ao adicionar um rótulo você escolhe o Tipo:
| Tipo | Quando usar | Exemplo (tipoUso.txt) |
|---|---|---|
Preferencial (pref) |
O nome principal do conceito, num idioma. Só pode haver um por idioma. É o que aparece em destaque. | febre |
Alternativo (alt) |
Outro nome válido e visível para o mesmo conceito: plural, variação regional, sinônimo popular, tradução. | febres (plural de febre) |
Oculto (hidden) |
Grafia errada ou forma obsoleta que não deve aparecer ao público, mas ajuda a busca a encontrar o conceito. | gazes (grafia incorreta de gases) |
Exemplos reais de clusters que devem virar um conceito com vários rótulos — os clusters realmente executados na curadoria do campo "Tipos de Usos de Plantas" (2026-08-07):
- Conceito
gripe→ alt:gripes,flu,prevenir a gripe. - Conceito
gases→ oculto:gazes(grafia incorreta,proposta.md:355). - Conceito
diarreia→ oculto:diarréia(proposta.md:205); alt:disenteria(proposta.md:210). - Conceito
hemorroidas→ oculto:hemorróidas(proposta.md:367). - Conceito
icterícia→ oculto:ictéricia(proposta.md:378). - Conceito
dor no estômago→ oculto:dor de estomago,dor no estomago(proposta.md:233e:250). - Conceito
anti-inflamatório→ alt:antiinflamatório; oculto:inflamation,inflamamtion(proposta.md:405-406).
Total real da campanha: 9 grafias incorretas viraram rótulo oculto, nenhuma foi apagada.
3.2 Idioma¶
Todo rótulo tem um idioma (código ISO 639-3 — na tela, o campo "Idioma (ISO 639-3)", com
exemplos por, eng, tup…). Isto é o que permite um mesmo conceito ter o nome preferido em
português e o nome preferido numa língua indígena, cada um com seu próprio estatuto. A regra
"um preferencial por idioma" significa que você pode ter, no mesmo conceito, pref/por e
pref/tup ao mesmo tempo — um preferido para cada língua.
A convenção é ISO 639-3, e só ela — por, eng, nunca pt. ISO 639-1 não codifica tup,
kgp, gub, as línguas que este vocabulário existe para abrigar; por isso os 2601 conceitos já
gravados no BioCultTermos foram migrados de pt para por. E a regra prática que a campanha
aplicou 45 vezes: termo em outro idioma é rótulo alternativo com language daquele idioma, não
conceito separado — headache → alt/eng de dor de cabeça; cough → tosse;
kidney stones → pedra nos rins; high blood pressure → pressão alta;
intestinal worms → verme; inflammed throat → inflamação na garganta.
3.3 Nível de Acesso (accessLevel) — os Princípios CARE¶
Cada rótulo tem um Nível de Acesso próprio. É aqui que o sistema materializa o princípio Authority to Control dos Princípios CARE: a comunidade decide o que do seu conhecimento pode ser divulgado, e em que nível.
| Nível | Significado | Uso típico no contexto tradicional |
|---|---|---|
Público (public) |
Aberto para consulta na internet (porta pública). | A maioria dos usos medicinais e materiais gerais: febre, artesanato, madeira. |
Restrito (restricted) |
Visível apenas a pesquisadores autorizados. | Conhecimento sensível, sob acordo (SisGen/comunidade). |
Sagrado (sacred) |
Visível apenas à comunidade detentora. | Usos rituais e cerimoniais de acesso reservado. |
Repare em termos como ritual (400), litúrgico (286), místico (309), descarrego (119),
defumação (111) e olho gordo (318). Um uso genérico como "ritual" pode ser público, mas o
nome específico de uma prática cerimonial numa língua indígena pode ser sacred — e o
sistema permite marcar isso rótulo por rótulo, não o conceito inteiro. Um conceito pode ter o
rótulo em português como public e o rótulo cerimonial na língua originária como sacred.
Na prática: ao cadastrar o nome de um uso ritual numa língua indígena, pergunte-se sempre: "a comunidade autorizou divulgar este nome na internet?". Se não tiver certeza, use
restrictedousacred. O padrão do sistema épublic— mude conscientemente.
O resultado honesto da campanha de "tipos de uso": nos 713 termos deste campo nenhuma
reclassificação de accessLevel se aplicou — são termos de uso recolhidos da literatura, em
português e inglês, nenhum nome em língua indígena, todos public. O CARE deixa de ser teórico no
campo nomeVernacular (982 termos ainda crus), onde cada nome tem povo de origem e pode
exigir restricted ou sacred.
3.4 Proveniência: de quem vem o nome¶
Ainda no formulário de rótulo, você tem:
- Povo fonte (
sourcePeople) — de qual povo/comunidade vem este nome. Ex: Guarani. - Povo detentor (CARE) (
holderPeople) — o povo que detém o conhecimento (pode ser diferente de quem forneceu o dado ao pesquisador). - Consentimento prévio e informado registrado (
priorInformedConsent) — marque quando houver consentimento documentado (Protocolo de Nagoya).
Estes campos são o que diferencia um vocabulário descolonizador de uma simples lista de palavras: o nome tradicional deixa de ser um apêndice anônimo e passa a carregar sua origem e sua governança.
3.5 Quando não há nome preferido: rótulos co-iguais¶
Muitas vezes não existe um nome preferido: uma comunidade chama a mesma planta por dois ou três
nomes igualmente válidos, e a academia e o público em geral também usam vernaculares sem preferência
fixa. Além disso, os nomes que chegam da coleta entram todos como pref em português — o que é só
ordem de coleta, não preferência real.
Entenda o ponto central: o tipo preferencial é um âncora de exibição, não um juízo de valor.
Ele diz apenas "é este o nome que a tela mostra em destaque e pelo qual a busca ordena" — nunca
"este nome vale mais que os outros". A regra "um preferencial por idioma" (§3.1) é
técnica: a interface precisa de uma string estável por idioma.
Então, quando não há preferência:
- Cadastre todos os nomes co-iguais do mesmo idioma como alternativos.
- Eleja um como preferencial, com "★ Tornar Preferencial", apenas como âncora de exibição. Escolha por um critério neutro, nesta ordem:
- a convenção da própria comunidade, se ela tiver uma (Princípio CARE Authority to Control);
- senão, o nome mais frequente nas fontes;
- senão, ordem alfabética.
- Escreva na Nota de Escopo que a escolha do preferencial é arbitrária, só para exibição, e que os alternativos são igualmente válidos. Assim o próximo curador não lê hierarquia onde não há.
Idiomas diferentes não competem. Um
pref/pore umprefnuma língua indígena coexistem (§3.2). O desempate acima só se aplica a nomes do mesmo idioma.Não deixe o conceito sem preferencial para "representar" a ausência de preferência: isso faz o nome aparecer como (sem rótulo) em listas, títulos e busca. A ausência de preferência se registra na Nota de Escopo — não deixando o campo vazio.